“A coisa mais bonita do mundo, mais bonita do que a beleza, é a diferença.
Suponhamos que o leopardo é o animal mais bonito da terra. Mais bonito do que ver cem leopardos juntos é ver um leopardo rodeado de outros animais, feios ou bonitos. Bonito, bonito é um leopardo ao pé de um ornitorrinco, um ornitorrinco ao pé de um flamingo, um flamingo ao pé de um crocodilo. É por isso que a ideia da Arca de Noé é tão comovente. Noé não escolheu os animais mais bonitos, nem os mais úteis, nem os mais fortes. Escolheu dois de cada espécie, não porque tivessem alguma qualidade particular, mas por serem diferentes dos demais.
Ser diferente é uma qualidade só por si. Só por ser diferente tem de ser defendido. Acontece, porém que vivemos num tempo igualitário, unificador e racionalista em que as diferenças que ainda existem tendem a ser abolidas”.

Miguel Esteves Cardoso «O Sabor Está na Diferença»

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Expressão escrita

3 Junho 2009

Há pessoas que nos rodeiam que são diferentes. E essa diferença não está só na forma de vestir, na personalidade, ou no carácter… essa diferença pode ser mais profunda e manifestar-se no aspecto físico ou mental da pessoa que vive ao nosso lado.

É a partir daqui que deves narrar, num texto bem estruturado, um caso de uma pessoa que conheças portadora de uma diferença profunda. Deves adoptar a perspectiva de narrador principal da história. (Não esqueças de analisar a situação sempre numa perspectiva em que tu és essa pessoa diferente).

Tem presente a fase da planificação, redacção e verificação do texto. (180 a 240 palavras).

No dia 30 de Maio ocorreu a semifinal do Concurso Nacional de Leitura. Consistia em 3 provas. A primeira era responder correctamente, com Verdadeiro ou Falso, a uma afirmação acerca das obras lidas (“O Fogo e as Cinzas” de Manuel da Fonseca; “Diário de Anne Frank” de Anne Frank; “A História Interminável” de Michael Ende). Na segunda prova foi-nos dado um cartão com um excerto de um dos livros. Depois da leitura, foi-nos pedido a identificação do autor e da obra da qual o excerto fora retirado. O júri, constituído por 4 elementos, estava encarregue da pontuar a leitura. Cada um atribuiu aos concorrentes uma pontuação de 0 a 20 pontos, em função da correcção da leitura, dicção, expressividade e correcta identificação da obra e autor. Na terceira e última prova, com uma palavra que aparecia aleatoriamente no ecrã, os concorrentes tinham de escrever uma frase, num minuto, relacionada com o conteúdo de uma das obras, em que essa palavra entrasse obrigatoriamente. Novamente o júri pontuou cada frase. Os pontos acumulados das 3 provas definiram os 12 melhores concorrentes do Ensino Básico e os 12 melhores concorrentes do Ensino Secundário, dos 72 alunos que participaram ao todo.

No dia seguinte, 31 de Maio, ocorreu a final. Duas das provas da fase anterior mantiveram-se: leitura e expressão e escrita e criatividade. Na terceira prova cada concorrente dispunha de 30 segundos para argumentar sobre um livro (de entre os propostos pelo Concurso) e convencer o público a lê-lo. Mais uma vez o júri pontuava. Os 6 melhores do Ensino Básico e os 6 melhores do Ensino Secundário passavam para a Finalíssima.

(Este texto foi escrito pela Helena. Falta acrescentar que a Helena só foi eliminada no acesso à final).

“Há quase meio século que se usam radiotelescópios para tentar ouvir mensagens de uma outra civilização inteligente algures no Universo. Mas, se descobrirmos outra inteligência, o que teríamos para lhes dizer?”

Este é um projecto lançado pela EarthSpeaks, do Instituto SETI (sigla em inglês de Procura de Vida Inteligente Extraterrestre).

O desafio que proponho é que construam um texto tendo por base o tema acima apresentado.

Fernando Pessoa

10 Maio 2009

Dos quatro poemas de Fernando Pessoa, selecciona um deles e correlaciona-os com um dos episódios que estudámos de “Os Lusíadas” . Podes apresentar o trabalho por escrito e/ou utilizar alguma das ferramentas digitais que utilizamos.

Plano de trabalho:
1. Análise formal do poema e interpretação;
2. Análise do episódio de “Os Lusíadas”;
3. Síntese comparativa;
4. Reflexão acerca dos Descobrimentos (aspectos positivos, aspectos negativos…).

O Horizonte
Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
‘Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade.

O Mostrengo
O mostrengo que está no fundo do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo:
“El-Rei D. João Segundo!”

“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
“Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu, e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”

O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Pedro Salinas é, de entre as muitas possibilidades de escolha, um escritor madrileno. Muitos outros poderiam ter sido destacados aqui, como Cervantes, Calderón de la Barca…, mas optei por este nome e por um poema da sua autoria. Seguramente que vão querer descobrir mais escritores hispânicos.

Ahora te quiero…

Ahora te quiero,
como el mar quiere a su agua:
desde fuera, por arriba,
haciéndose sin parar
con ella tormentas, fugas,
albergues, descansos, calmas.
¡Qué frenesíes, quererte!
¡Qué entusiasmo de olas altas,
y qué desmayos de espuma
van y vienen! Un tropel
de formas, hechas, deshechas,
galopan desmelenadas.
Pero detrás de sus flancos
está soñándose un sueño
de otra forma más profunda
de querer, que está allá abajo:
de no ser ya movimiento,
de acabar este vaivén,
este ir y venir, de cielos
a abismos, de hallar por fin
la inmóvil flor sin otoño
de un quererse quieto, quieto.
Más allá de ola y espuma
el querer busca su fondo.
Esta hondura donde el mar
hizo la paz con su agua
y están queriéndose ya
sin signo, sin movimiento.
Amor
tan sepultado en su ser,
tan entregado, tan quieto,
que nuestro querer en vida
se sintiese
seguro de no acabar
cuando terminan los besos,
las miradas, las señales.
Tan cierto de no morir,
como está
el gran amor de los muertos.

Pedro Salinas

O direito de brincar e de nos divertirmos deve ser um direito inalienável de qualquer ser humano. Numa leitura de fim-de-semana, a minha amiga Cristina Pinto partilhou um excerto do livro “O Brincador” de Álvaro Magalhães. Deliciem-se!

«Quando for grande, não quero ser médico, engenheiro ou professor.
Não quero trabalhar de manhã à noite, seja no que for.
Quero brincar de manhã à noite, seja com o que for.
Quando for grande, quero ser um brincador.
Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor.
Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer.
Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador, e também que imaginar, como imagina um imaginador…
A mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida. E depois acrescenta, a suspirar: “é assim a vida”. Custa tanto a acreditar. Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar.
A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser brincador. Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta. Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar mesmo depois de morta. Na minha sepultura, vão escrever: “Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs para ir brincar com as palavras.»

O Brincador,
Álvaro Magalhães