Este é um excerto retirado de “O Apocalipse dos Trabalhadores”.

“de noite, a maria da graça sonhava que às portas do céu se vendiam souvenirs da vida na terra. gente de palavras garridas que chamava a sua atenção com os braços no ar, como quem tinha peixe fresco, juntava-se em redor da sua alma e despachava por bagatelas as coisas mais passíveis de suprir uma grande falta aos que morriam. os últimos charlatães, pensava ela, envergonhada até por ter de pensar depois de morta, ou talvez fosse coisa boa antes de se entrar no céu ser dada a oportunidade de levar um objecto, uma imagem materializada, algo como prova de uma vida anterior ou extrema saudade. ela pedia-lhes que a deixassem passar, ia à pressa, insistia, sabia mal o que fazer e não podia decidir nada sobre nada. seguia perplexa e não querendo arriscar a ganância de se depositar na eternidade a partir de um acto de posse. por uma compreensível angústia, ansiedade ou frenesi de ali estar tão pela primeira vez, mantinha a esperança de que talvez são pedro a esclarecesse e, com um pé lá dentro e outro ainda fora, lhe fosse possível comprar o requiem de mozart, a reprodução dos frescos de goya ou a edição francesa das raparigas em flor.
as portas do céu eram pequenas, ao contrário do que poderia esperar. precisaria de se baixar consideravelmente para passar e, na multidão de quem queria ser atendido, era dramática a confusão, gerando violência e uma nuvem de pó que se levantava com muita frequência . a maria da graça ainda escapava aos vendedores e já tentava  perceber de que lado da praça devia arriscar a sua aproximação à porta. não era fácil fazer o caminho daqueles cem metros sem levar um encontrão ou, pior ser confundida com um dos arruaceiros e, por isso, obrigada a permanecer ali fora a enraivecer eternamente.
não ficavam ali eternamente, pensava depois, haveriam de seguir par o inferno, levados pelas orelhas como malcomportados. talvez passasse por ali uma carrinha fechada que os apanhasse como se fazia aos cães vadios. uns homens sairiam em busca de quem estivesse naquele impasse e atacariam com redes grandes que lhes tolheriam os gestos. a praça ficaria limpa por um tempo.
a maria da graça encostava-se o mais que podia às paredes e lá fazia o seu percurso, convicta de que, tendo morrido de tão horrenda sorte, seria digna de todos os perdões e admitida no céu. assim se apresentou, maria da graça, fui empregada de limpeza, sim mulher-a-dias, como se fosse mulher só de vez em quando, em alguns dias. e o são pedro perguntava-lhe, o que é que isso quer dizer. e ela respondia, matou-me o senhor ferreira, que há muito me andava a fazer mal e eu até já o via a acontecer. o são pedro inclinava-se para trás e barriga para a frente, e ria-se, dizia, ó minha senhora, isso agora não tem valor, os mortos são todos iguais, não têm profissão e não lhes vale de nada o que aprenderam a fazer, ou parece-lhe que aqui existem quartos para limpar. a maria da graça insistia, mas morri sem vontade, foi o velho, por mim estava ainda a ganhar a vida, que não sou mulher de fugir a nada. o porteiro do céu encarava-a de perto, calando a sua gargalhada e espiando atentamente os olhos da mulher, e que terás feito tu para mereceres isso, perguntava-lhe, como podes esperar o perdão se ficaste ao pé do teu predador quando podias ter fugido. que quereria dizer com aquilo. que provocador lhe parecia o são pedro, o estupor. estaria tão informado sobre as iniquidades dela, perguntava-se. que maldade de homem lhe parecia, a fazer da entrada do céu uma coisa difícil. e que mau aspecto tinha aquilo, com as brigas à porta, tão infindáveis e barulhentas. o santo recolhia os lábios como quem se fechava para não mais falar e foi como se pareceu a uma pedra, uma pedra que ao invés de se fazer de força inerte e bela, rolara para o centro da pequena porta como selando um túmulo. que terrível a entrada no céu se era em tudo parecida com a da morte. ir para o céu, pensava a maria da graça, é morrer. deixava-se estupefacta com tal ideia como se, por natureza, uma coisa não pudesse significar a outra. acordava suada, o coração a bater doido no peito e a boca sibilando aflita dizendo, não sou mulher de fugir a nada, eu não sou mulher de fugir a nada”.

Valter Hugo Mãe, O Apocalipse dos Trabalhadores.

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valter hugo mãe

24 Outubro 2008

Valter Hugo Mãe nasceu em Angola, Saurimo, em 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira, vive em Vila do Conde desde 1981. Licenciado em Direito, pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea.

Oiçam Valter Hugo Mãe, e descubram por que motivo José Saramago lhe chamou um tsunami.

O Jornal Público de hoje traz uma notícia que devem ler. Muitas vezes se fala que as pessoas hoje não lêem, ou se lê cada vez menos. Provavelmente, a realidade não é assim tão simples e posso mesmo assegurar que os meus alunos lêem como nunca. Mas espreitem aqui.

Abrimos esta janela para falarmos das nossas leituras.
Neste momento estou a ler a obra, que a seguir cito:

Exemplo: Valter Hugo Mãe, O Apocalipse dos trabalhadores, ed. Quidnovi.

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Exemplo: Valter Hugo Mãe, O Apocalipse dos trabalhadores, ed. Quidnovi.

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Exemplo: Valter Hugo Mãe, O Apocalipse dos trabalhadores, ed. Quidnovi.