Rosa Ramalho

19 Agosto 2008

A artesã surrealista de Barcelos

O Museu de Olaria de Barcelos expõe a sua colecção de peças de Rosa Ramalho, que nasceu há 120 anos. O comissário da exposição é o arquitecto e coleccionador Alexandre Alves Costa, que guiou o P2 numa visita a esta expressão única da arte popular. Descobriu-a na segunda metade da década de 1950, quando, com os seus colegas da escola de Belas-Artes do Porto, e seguindo a intuição do pintor e professor António Quadros (1933-1994), se deslocou a S. Martinho de Galegos, uma freguesia de Barcelos, em busca da verdade da arte popular. Foi assim que Alexandre Alves Costa, arquitecto mas também coleccionador e, principalmente, um amador do figurado de Barcelos, conheceu Rosa Ramalho (1888-1977), então uma anónima barrista como tantas outras que faziam a fama de uma terra que exibia as cores e as formas do seu imaginário nas bancas da feira semanal, todas as quintas-feiras.[…]

Da tradição ao surrealismo
Alexandre Alves Costa diz que os bonecos de Rosa Ramalho são, primeiro do que tudo, a expressão da tradição do figurado de Barcelos, “que é a mais rica do nosso país, do ponto de vista da criatividade, da variedade e da abrangência dos temas que recria”, como o demonstravam já os estudos do etnólogo António Rocha Peixoto (1866-1909), há um século atrás. Mas, “sendo uma mulher muito ligada às raízes, a Sra. Rosa é muito mais do que simples seguidora da tradição. Para além de uma invulgar capacidade de manusear o barro, ela tem uma grande imaginação, aumenta a dimensão das peças e inventa e mistura coisas – as mulheres com corpo de animais, os porcos com cornos ou com cabeça de lobo -, e passa claramente para o campo da artisticidade pura”. O arquitecto vê mesmo Rosa Ramalho como “uma artista surrealista”, no modo como deixa voar a sua imaginação fértil e desbragada.
A propósito desta associação da arte da barrista minhota com a linguagem surrealista, há um episódio que faz já parte do romance da sua biografia: o facto de, a determinada altura da sua produção, Rosa Ramalho ter feito uma cabra idêntica à criada por Picasso levou alguns a defender que o pintor malaguenho poderia ter-se inspirado nela. Alves Costa diz que essa “é uma história falsa”. O que aconteceu, assegura o arquitecto, é que alguém encomendou à artesã uma cabra pedindo-lhe que seguisse uma fotografia da de Picasso. De resto, a cabra faz parte do bestiário tradicional do figurado de Barcelos – como o porco, o boi ou o burro, afinal os animais da economia quotidiana da região, que são a matriz da arte popular aí como em qualquer outra parte do mundo, explica Alves Costa.

A assinatura
“Barcelos tem uma produção de figurado muito em série”, que inicialmente se materializava nos assobios e nos paliteiros, nas suas formas mais diversas, que se vendiam na feira local – e que ainda hoje é uma das principais fontes da economia da terra. Mas de entre essa produção anónima emergiram sempre barristas cujas peças ultrapassavam os cânones tradicionais e se afirmavam como verdadeiros artistas. O arquitecto-coleccionador cita vários nomes: Teresa Carumas, Rosa Cota, Manuel Coto, Teresa Mouca ou o Sr. João “dos lagartos”…

Uma visita à exposição do Museu de Olaria guiada por Alexandre Alves Costa ajudará a distinguir “o trigo do joio” da verdadeira arte de Rosa Ramalho. […]

Cavaleiro
“O cavaleiro é uma permanência na arte popular de todo o mundo. É uma figura que tem sempre uma certa solenidade, e existe muito em Barcelos. A Sra. Rosa fazia cavaleiros para os presépios (os reis magos), e fazia rainhas, princesas, soldados… Mas também existem cavaleiros do povo: este tem o particular interesse de ter associado o lagarto, que, como a cobra, está ligado à ideia de virilidade e de fertilidade – é uma simbologia que vem da Pré-História.”

Mulher-sereia
“É também uma peça muito característica, que mistura cabeça humana com corpo de animal. Esta, que deve ser dos anos 60, é particularmente bonita. Há sempre muitas variações, que transformam esta figura numa coisa cada vez mais surrealista. Esta vai a tocar um instrumento, mas nas costas! Outras figuras aparecem viradas ao contrário, relativamente ao corpo do animal. É uma peça que a Sra. Rosa fazia muito.”

Porco
“Há sempre um animal real na base, mas, depois, há um processo de transformação. Aqui há claramente uma mistura do porco com um lobo, com dentes – a ideia de ferocidade. Às vezes, surge com os cornos do boi ou com a cabeça do carneiro. É uma sobreposição muito característica no figurado de Barcelos e a Sra. Rosa explora bem isto.”

Cabeçudo
“É uma representação dos cabeçudos das festas das aldeias, do hábito de as pessoas vestirem máscaras, para assustarem e para brincarem. A máscara existe, também, em todas as culturas do mundo. O cabeçudo é a representação dessa transfiguração. No Minho, continua a ter hoje uma utilização muito frequente. Basta ir à Senhora da Agonia, em Viana.”
Cabra aculturada
“Chamei-lhe ‘aculturada’, porque é uma mistura da tradição das cabras de Barcelos, que são já referidas pelo Rocha Peixoto no século XIX, e que todas as mulheres fazem, que acabam com um feitio afunilado, quase com corpo de ave. Esta foi claramente feita com base numa fotografia da cabra de Picasso, que alguém forneceu à Sra. Rosa, pedindo-lhe para a copiar. Depois, ela continuou a fazê-la, mas passou também a misturá-la com a cabra da tradição local, regressando às raízes.”

Galo
“Este galo tem um vidrado bicolor e um bojo muito grande, que normalmente é feito com torno, sendo-lhe depois aplicados os restantes motivos. Não tem nada três patas, como às vezes dizem, são só duas e um suporte. É uma peça muito pouco estilizada, que vem da tradição anterior ao galo produzido no tempo do António Ferro, e que depois teve um grande sucesso. Mas este também é uma peça incrível, uma estilização um bocado art déco.”

Cristo
“É um Cristo de grandes dimensões (60 cm de altura), muito ligado à tradição de Barcelos, porque é totalmente vidrado e porque não tem cruz. A cruz foi uma imposição do mercado: um dia, um comerciante de Lisboa encomendou-lhe 200 Cristos, mas exigiu que tivessem cruz, e a Sra. Rosa começou a fazê-los assim. Este tem um movimento de corpo muito bonito, do ponto de vista escultórico. E vê-se que o rigor da anatomia não é uma coisa que a preocupe muito: os braços são muito pequeninos, mas é uma desproporção muito pensada, para valorizar outras partes do corpo.”

Alminhas
“É uma temática também corrente na obra da Sra. Rosa. É uma peça muito boa, porque se percebe que é totalmente feita por ela. Todos os elementos decorativos têm uma grande largueza, sem grande pormenor. Ela não tinha muito gosto nem paciência para a ornamentação; interessava-lhe mais a forma, a estrutura. Para decorar as peças, ela passava-as aos filhos e netos, que com ela trabalhavam. Esta peça é uma belíssima síntese da sua arte.”
Sérgio C. Andrade, in Público

Rosa Ramalho –
A Colecção
Comissário: Alexandre Alves Costa
BARCELOS Museu
de Olaria. Tel.: 253824741
Bilhetes: 2,15 euros
Até Junho de 2010

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2 Responses to “Rosa Ramalho”

  1. leo dueppers Says:

    Hallo

    sehr intereesant den Artikel über rosa ramalho zu lesen.

    eine grosse frau und künstlerin.bin ihr damals noch auf dem mercado de primavera in lisboa begegnet
    freue mich,dass es eine Ausstellung gibts
    grüsse

    leo düppers colonia alemania

  2. Fabiano Says:

    Quem me dera poder ir ver essa exposição, pois seria como resgatar a memória de meu próprio avô paterno que era irmão de Rosa Ramalho. Contudo, fico feliz aqui do Rio de Janeiro por saber que minha tia-avó era tão talentosa.

    Saudações desde o Brasil.


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