Metáfora, outra vez

14 Janeiro 2008

Lembrei-me de uma passagem célebre do escritor chileno Pablo Neruda, que explica de uma forma muito simples, mas bela o que é uma metáfora.

– “Poça, como eu gostava de ser poeta! (…)
– E para pensar ficas sentado? Se queres ser poeta, começa por pensar caminhando. Ou és como John Waine, que não conseguia andar e mascar chiclets ao mesmo tempo? Agora vais até à calheta pela praia, e enquanto observas o movimento do mar vais fazendo metáforas.
– Dê-me um exemplo.
– Olha este poema:«Aqui na Ilha, o mar, e quanto mar. Sai de si mesmo, a cada instante. Diz que sim, que não, que não. Diz que sim, em azul, em espuma, em galope. Diz que não, que não. Não pode estar quieto. Chamo-me mar, repete pegando numa pedra sem conseguir convencê-la. Então com sete línguas verdes, de sete tigres verdes, de sete cães verdes, de sete mares verdes, percorre-a, beijando-a, humedece-a e bate no peito repetindo o seu nome.» – Fez uma pausa satisfeito. O que achas?
– Estranho.
– «Estranho». Que crítico severo és tu! (…)
– Como se pode explicar? Enquanto dizia o poema as palavras iam de cá para lá…
– Como o mar, claro! (…) Isso é o ritmo.
– E eu senti-me estranho, porque com tanto movimento enjoei.
– Enjoaste?
– Claro! Eu ia como um barco balançando nas suas palavras. (…)
– «Como um barco balançando nas minhas palavras.» (…) Sabes o que fizeste Mario?
– O que foi?
– Uma metáfora”.

in “O Carteiro de Pablo Neruda” de Antonio Skármeta

Em “Sexta-Feira ou a Vida Selvagem”, está escrito:
“Uma borboleta branca (…) é um malmequer que voa” (p.79)

Encontra outras metáforas utilizadas para definir: lua, oceano e ilha.

   
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4 Responses to “Metáfora, outra vez”

  1. Gabriel Vilas Boas Says:

    Metáfora : “A noite caía…”
    Pág.67 livro “Sexta Feira ou a Vida Selvagem”

  2. João fernandes Says:

    Metáfora: ” Os pássaros conservavam-se num silêncio de morte”
    Pág.107 livro ” Sexta-feira ou a vida selvagem”

  3. Diana Manuela Says:

    Metáfora: ” … a espingarda é a maneira mais feia de queimar a pólvora. Quando está fechada na câmara de carabina, ela grita e torna-se má”.
    Pág.77 livro ” Sexta-feira ou a vida selvagem”


  4. “O Carteiro de Pablo Neruda” (que, no Brasil, recebeu o título de ‘O Carteiro e o Poeta’), de Antonio Skármeta. Eis meu filme preferido. Maravilhosa essa passagem.

    Um abraço!


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