Fernando Pessoa

10 Maio 2009

Dos quatro poemas de Fernando Pessoa, selecciona um deles e correlaciona-os com um dos episódios que estudámos de “Os Lusíadas” . Podes apresentar o trabalho por escrito e/ou utilizar alguma das ferramentas digitais que utilizamos.

Plano de trabalho:
1. Análise formal do poema e interpretação;
2. Análise do episódio de “Os Lusíadas”;
3. Síntese comparativa;
4. Reflexão acerca dos Descobrimentos (aspectos positivos, aspectos negativos…).

O Horizonte
Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
‘Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.

O Mostrengo
O mostrengo que está no fundo do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo:
“El-Rei D. João Segundo!”

“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
“Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu, e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”

O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Este ano pensei que poderíamos oferecer um livro às nossas mães.

Para isso sugiro que explorem esta ferramenta. Caso tenham dúvidas, deixem aqui um comentário.

Participem!

Entrem por aqui.

Pedro Salinas é, de entre as muitas possibilidades de escolha, um escritor madrileno. Muitos outros poderiam ter sido destacados aqui, como Cervantes, Calderón de la Barca…, mas optei por este nome e por um poema da sua autoria. Seguramente que vão querer descobrir mais escritores hispânicos.

Ahora te quiero…

Ahora te quiero,
como el mar quiere a su agua:
desde fuera, por arriba,
haciéndose sin parar
con ella tormentas, fugas,
albergues, descansos, calmas.
¡Qué frenesíes, quererte!
¡Qué entusiasmo de olas altas,
y qué desmayos de espuma
van y vienen! Un tropel
de formas, hechas, deshechas,
galopan desmelenadas.
Pero detrás de sus flancos
está soñándose un sueño
de otra forma más profunda
de querer, que está allá abajo:
de no ser ya movimiento,
de acabar este vaivén,
este ir y venir, de cielos
a abismos, de hallar por fin
la inmóvil flor sin otoño
de un quererse quieto, quieto.
Más allá de ola y espuma
el querer busca su fondo.
Esta hondura donde el mar
hizo la paz con su agua
y están queriéndose ya
sin signo, sin movimiento.
Amor
tan sepultado en su ser,
tan entregado, tan quieto,
que nuestro querer en vida
se sintiese
seguro de no acabar
cuando terminan los besos,
las miradas, las señales.
Tan cierto de no morir,
como está
el gran amor de los muertos.

Pedro Salinas

Dia Mundial da Poesia

21 Março 2009

Um desafio para dia Mundial da Poesia: cada um partilha um poema que goste muito

Aprender a Crescer
Estudar é muito importante,
mas pode-se estudar de várias maneiras…
Muitas vezes estudar não é só aprender
O que vem nos livros.
Estudar não é só ler nos livros
que há nas escolas.
É também aprender a ser livres,
sem ideias tolas.
Ler um livro é muito importante,
às vezes, urgente,
mas os livros não são o bastante
para a gente ser gente.
É preciso aprender a escrever,
mas também a viver,
mas também a sonhar.
É preciso aprender a crescer, aprender a estudar.
Aprender a crescer quer dizer:
aprender a estudar, a conhecer os outros,
a ajudar os outros,
a viver com os outros.
E quem aprende a viver com os outros
aprende sempre a viver bem consigo próprio.
Não merecer um castigo é estudar.
Estar contente consigo é estudar.
Aprender a terra, aprender o trigo
e ter um amigo também é estudar.
Estudar também é repartir,
também é saber dar
o que a gente souber dividir
para multiplicar.
Estudar é escrever um ditado
Sem ninguém nos ditar;
e se um erro nos for apontado
é sabê-lo emendar.
É preciso, em vez de um tinteiro,
ter uma cabeça que saiba pensar,
pois, na escola da vida,
primeiro está saber estudar.
Contar todas as papoilas de um trigal
é a mais linda conta de somar
que se pode fazer.
Dizer apenas música,
quando se ouve um pássaro,
pode ser a mais bela redacção do mundo…
Estudar é muito
mas pensar é tudo!

J. C. Ary dos Santos

Semana da leitura

28 Fevereiro 2009

A Semana da Leitura está aí mesmo a chegar. Deixo-vos com este excerto de Daniel Sampaio a propósito dos efeitos da leitura no desenvolvimento das capacidades do cérebro.

«A investigação tem demonstrado a possibilidade de a leitura ampliar as capacidades do cérebro, criando diferentes perspectivas de interpretação da realidade e novas competências no manejo das emoções, contribuindo para a melhor compreensão da complexidade do mundo. Especialistas defendem que o que importa é que a criança leia, sobretudo textos que a mobilizem e não se afigurem desconexos em termos  de espaço e tempo, o que poderá levar ao abandono do livro. Por isso, o interesse de uma criança ou de um adolescente por qualquer tema deverá ser incentivado, porque estará a contribuir para o ganho de hábitos de leitura, que só se poderão consolidar nas idades jovens.
Costuma dizer-se que se pode ler um livro a uma criança desde muito cedo, na prática deve seguir-se o conselho de segurar a criança ao colo e com a mão disponível ler-lhe um episódio qualquer que o faça sonhar: não importa, a princípio, se é ou não um texto de muito valor literário».

Dia dos Namorados

12 Fevereiro 2009

Como tenho a certeza que o Dia dos Namorados é para todos vós uma data muito especial, pensei propor-vos uma actividade que fosse significativa, criativa e relacionada com a Língua Portuguesa. Porém, o tempo foi passando e, só agora mesmo, me ocorre uma actividade que será certamente motivadora.

Consiste, então, no seguinte: cada um vai seleccionar um poema, um parágrafo de um texto, cujo assunto tenha a ver com amor, amizade, partilha, sentimentos ou outro assunto que se enquadre neste campo semântico.

Claro que, se quiserem também podem apresentar textos da vossa autoria.

Aguardo com muita expectativa os vossos comentários.

[Como o Dia dos Namorados é já no próximo sábado, pelo que poderão apresentar os vossos trabalhos durante o fim-de-semana se assim o entenderem].

Jornal de Letras

27 Janeiro 2009

O Jornal de Letras oferece amanhã uma antologia de poesia lusófona com o título “LeYa Poemas” que virá com a milésima edição do Jornal de Letras.Os poemas são de autores vivos.

Entre eles, estão Nuno Júdice, Gastão Cruz, Maria Teresa Horta, António Ramos Rosa, Manuel Alegre, Pedro Tamen, Manuel Gusmão, Ana Marques Gastão, Pedro Mexia, Mia Couto, Guita Jr., Ondjaki, Paula Tavares, José Carlos de Vasconcelos e José Saramago, entre outros, num total de 28 autores.

O Jornal de Letras, Artes e Ideias é uma publicação quinzenal do grupo Impresa (Sic, Visão, Expresso), que chegou às bancas em 1978 e é desde então dirigido por José Carlos Vasconcelos.

Auto-retrato

9 Outubro 2008

O Jorge Barros traz-nos este auto-retrato.

Dos meus olhos saem duas luzes,
tímidas, por vezes, mas sempre em alerta constante
tenho no rosto um sorriso brilhante
vermelho e rosados são os meus lábios
como uma bela maçã.
Maçã da face envolta
por escuros cabelos curtos.

Abri o livro…

6 Outubro 2008

Um poema original da Carla Enes.

Abri o livro
página a página,
e sempre com os olhos humedecidos,
Lembrei-me,
daqueles momentos,
daqueles minutos,
que pensava que era ilusão
Mas não!
Não era,
era apenas uma realidade
Que por gosto,
me faziam trabalhar aos sábados
para no domingo
dar aquela palavra
que depois de explicada
Às vezes,
me dava uma grande desilusão.

Saía de lá
zangada,
irritada.
Ai que nervos!!!!
aquela confusão,
mas logo passava
porque sempre
que havia uma desilusão
logo de seguida,
vinham aqueles momentos
de perdão,
de carinho,
que até me vinha lágrimas aos olhos.

Apesar de tudo isto
momentos maus,
momentos bons,
espero deixar saudade,
e apesar,
de não poder dar mais aquela palavra,
e após a minha virgula
deixo a palavra SAUDADE
e termino com o ponto final.

Com alegria e orgulho
são os meus queridos meninos
e sempre serão.

Uma sugestão da Diana, na véspera da comemoração do Dia Internacional do Professor.

Professor, diz-me porquê?
Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?
Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão…
Tenho nove anos professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!
Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.
É a luta professor
a luta em vez de amor.
Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.
Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.
Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!…
E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições…
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tantas mais definições…
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.

Alice Gomes

Diz-me a tua esperança

4 Outubro 2008

Depois de veres o filme, diz-me quais são as tuas esperanças…

Beijo

2 Outubro 2008

O último poema proposto pela Rita, tem por título Beijo,e é do poeta João de Deus.

Beijo
Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá!

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente…
Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo…
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!

Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois…

Oh! dois? Piedade!
Coisas tão boas…
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!

Três é a conta
Certinha e justa…
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
Três!

João de Deus

Ricardo Reis

30 Setembro 2008

A Dulce traz-nos este magnífico poema de Ricardo Reis.

Segue o teu destino
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor das aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela não pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos Deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis

Borboletas

29 Setembro 2008

A Ana propõe um poema de Vinicius de Moraes, Borboletas.

Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas

Borboletas brancas
São alegres e francas.

Borboletas azuis
Gostam muito de luz.

As amarelinhas
São tão bonitinhas!

E as pretas, então . . .
Oh, que escuridão!

Vinicius de Moraes

Escreve o teu rosto

29 Setembro 2008

Mais um desafio: transforma o teu sorriso em poesia.

Vou dar algumas sugestões: começa por desenhar ou tirar fotografias a várias expressões do teu rosto. Depois, imagina-te um poeta. Faz, então, o teu auto-retrato. Lembro-me de um soneto célebre de Bocage, no qual faz o seu retrato de uma forma genial. Ora repara:

Auto-retrato
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Bocage
Poesias de Bocage
Lisboa, Comunicação, 1992 (4ª ed.)

Se quiseres, podes experiementar uma ferramenta que te permitirá articular o texto e a imagem. Este exemplo dos alunos do J. I. de Rio Côvo, parece-me extraordinário. Querem ver? Espreitem aqui.

imagens+sons=poema

28 Setembro 2008

Este filme transmite uma mensagem, muitos sentimentos, sensações sonoras e imagéticas que nos fazem naturalmente pensar.
Constrói um texto (preferencialmente poético) tendo por base este filme. A ideia não é recontar: o importante é que desenvolvas a (s) mensagem (ens) através do uso da palavra.

O Livro

25 Setembro 2008

Logo pela manhã, ofereceram-me um poema. Obrigado, Cândida.

Toma o teu livro
cuidadosamente
como quem afaga um tesoiro.
Inclina-te contente
e abre o segredo de oiro
das laudas vigilantes:
ardem como um coração
fixam como um olhar
abrem-se como uns lábios
que segredam uma oração.
Toma o teu livro
que te ensina a Vida
como um abraço de irmão.

Lúcio Craveiro da Silva

Vinicius de Moraes

24 Setembro 2008

O Pedro descobriu toda a força e beleza das palavras de Vinicius de Moraes e, ao que parece, ficou mesmo fã. Podem ler vários poemas seleccionados por ele no seu blogue. Deixo “A maior solidão”.

A maior solidão

A maior solidão é a do ser que não ama.
A maior solidão é a dor do ser que se ausenta,
que se defende, que se fecha,
que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo,
no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede
o que ele pode dar de amor,
de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar,
o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.

Esse queima como uma lâmpada triste,
cujo reflexo entristece também tudo em torno.

Ele é a angústia do mundo que o reflete.
Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção,
as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio,
semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

Vinicius de Morares

Um poema de Almeida Garrett

23 Setembro 2008

Tal como combinámos, iniciamos uma nova série de recolha de poemas de autor e inéditos. O João sugere este poema de Almeida Garrett, a Tempestade.

Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.

Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.

Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.

Um poema de José Régio

22 Setembro 2008

E quem pode ficar indiferente a um poema assim?
Leima com calma e não se assustem…

Cântico Negro

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”? Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio

Poesia

22 Setembro 2008

Depois dos exercícios diagnósticos, que concluiremos para a semana, este ano iniciamos o programa de nono ano pelo estudo do texto poético. O ano passado, os vossos blogues foram coloridos com muitos e variados poemas. À semelhança do que aconteceu no passado, lanço-vos novamente o desafio de transcreverem poemas que gostem. Mas quero mais: gostava quer escrevessem poemas originais.
Prometo fazer o possível para destacar aqui no blogue um desses poemas – de segunda a sexta.

Começamos já amanhã?

Ora leiam este poema… Vão adorar!

Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos,
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora d’esperar bem,
que nunca tam tristes vistes,
outros nenhuns por ninguém.

João Ruiz Castell-Branco
in Garcia de Resende,
Cancioneiro Geral

Fernando Pessoa

15 Julho 2008

A Biblioteca Nacional disponibilizou, na Biblioteca Nacional Digital, 29 cadernos de apontamentos de Pessoa, com cerca de 1.500 páginas. Ali se encontra a obra completa de Alberto Caeiro, outro dos heterónimos de Pessoa.

Urgentemente

18 Junho 2008

“É urgente o amor”… Assim é o início do poema que a Sara escolheu para o seu videopoema.

Videopoema

12 Junho 2008

A Diana Manuela Sá realizou este videopoema.

Fernando Pessoa

8 Junho 2008

A antologia “Poesia de Fernando Pessoa para todos”, organizada por José António Gomes com ilustrações de António Modesto, visa “aproximar mais cedo os mais novos” do poeta da “Mensagem”.

Com a chancela da Porto Editora, esta antologia é editada no âmbito dos 120 anos do nascimento do escritor, reunindo cerca de 30 poemas seus.

Em declarações à Lusa, José António Gomes afirmou que esta antologia “visa aproximar mais cedo dos mais novos a poesia de Pessoa”.

“O próprio Pessoa escreveu alguns poemas às suas sobrinhas, um destinatário infantil, mas há outros poemas seus, simples e compreensíveis pelos mais novos, com uma estrutura lírico-dramático”, explicou José António Gomes.

O investigador salientou as ilustrações e o design de António Modesto, “marcados por um estilo que lembra aqui e ali as vanguardas históricas do princípio do século XX, o período de actividade de Pessoa”.

“Há referências a Amadeo de Souza-Cardoso e ao cubismo”, acrescentou.

A antologia inclui, entre outros, “Poema pial”, “Ó sino da minha aldeia”, “A fada das crianças” e “Liberdade”, num total de 27 poemas, na sua maioria de autoria de Fernando Pessoa, mas incluindo dois heterónimos.

De Ricardo Reis escolheu a ode “Para ser grande sê inteiro” e de Álvaro de Campos “Todas as cartas de amor são ridículas”.

Segundo José António Gomes, professor na Escola Superior de Educação do Porto, “Fernando Pessoa é dos poetas mais conhecidos e lidos”, mas pode-se ainda “aproximá-lo dos mais novos, logo na escola primária e no 2º ciclo”.

Ilustrador e o antologista estarão na próxima quinta-feira, 13 de Junho, dia do aniversário de Fernando Pessoa, na Feira do Livro de Lisboa, a cidade onde nasceu.

O livro integra a colecção “Oficina dos Sonhos”, um projecto da Porto Editora que visa “reunir clássicos da literatura infantil e juvenil, obras contemporâneas de grandes autores e ilustradores portugueses ou estrangeiros, e álbuns para os mais pequenos”, segundo fonte editorial.

(Fonte: Lusa)

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