Ricardo Reis

30 Setembro 2008

A Dulce traz-nos este magnífico poema de Ricardo Reis.

Segue o teu destino
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor das aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela não pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos Deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis

Borboletas

29 Setembro 2008

A Ana propõe um poema de Vinicius de Moraes, Borboletas.

Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas

Borboletas brancas
São alegres e francas.

Borboletas azuis
Gostam muito de luz.

As amarelinhas
São tão bonitinhas!

E as pretas, então . . .
Oh, que escuridão!

Vinicius de Moraes

Escreve o teu rosto

29 Setembro 2008

Mais um desafio: transforma o teu sorriso em poesia.

Vou dar algumas sugestões: começa por desenhar ou tirar fotografias a várias expressões do teu rosto. Depois, imagina-te um poeta. Faz, então, o teu auto-retrato. Lembro-me de um soneto célebre de Bocage, no qual faz o seu retrato de uma forma genial. Ora repara:

Auto-retrato
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Bocage
Poesias de Bocage
Lisboa, Comunicação, 1992 (4ª ed.)

Se quiseres, podes experiementar uma ferramenta que te permitirá articular o texto e a imagem. Este exemplo dos alunos do J. I. de Rio Côvo, parece-me extraordinário. Querem ver? Espreitem aqui.

imagens+sons=poema

28 Setembro 2008

Este filme transmite uma mensagem, muitos sentimentos, sensações sonoras e imagéticas que nos fazem naturalmente pensar.
Constrói um texto (preferencialmente poético) tendo por base este filme. A ideia não é recontar: o importante é que desenvolvas a (s) mensagem (ens) através do uso da palavra.

O Livro

25 Setembro 2008

Logo pela manhã, ofereceram-me um poema. Obrigado, Cândida.

Toma o teu livro
cuidadosamente
como quem afaga um tesoiro.
Inclina-te contente
e abre o segredo de oiro
das laudas vigilantes:
ardem como um coração
fixam como um olhar
abrem-se como uns lábios
que segredam uma oração.
Toma o teu livro
que te ensina a Vida
como um abraço de irmão.

Lúcio Craveiro da Silva

Vinicius de Moraes

24 Setembro 2008

O Pedro descobriu toda a força e beleza das palavras de Vinicius de Moraes e, ao que parece, ficou mesmo fã. Podem ler vários poemas seleccionados por ele no seu blogue. Deixo “A maior solidão”.

A maior solidão

A maior solidão é a do ser que não ama.
A maior solidão é a dor do ser que se ausenta,
que se defende, que se fecha,
que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo,
no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede
o que ele pode dar de amor,
de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar,
o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.

Esse queima como uma lâmpada triste,
cujo reflexo entristece também tudo em torno.

Ele é a angústia do mundo que o reflete.
Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção,
as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio,
semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

Vinicius de Morares

Um poema de Almeida Garrett

23 Setembro 2008

Tal como combinámos, iniciamos uma nova série de recolha de poemas de autor e inéditos. O João sugere este poema de Almeida Garrett, a Tempestade.

Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.

Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.

Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.

Um poema de José Régio

22 Setembro 2008

E quem pode ficar indiferente a um poema assim?
Leima com calma e não se assustem…

Cântico Negro

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”? Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio

Poesia

22 Setembro 2008

Depois dos exercícios diagnósticos, que concluiremos para a semana, este ano iniciamos o programa de nono ano pelo estudo do texto poético. O ano passado, os vossos blogues foram coloridos com muitos e variados poemas. À semelhança do que aconteceu no passado, lanço-vos novamente o desafio de transcreverem poemas que gostem. Mas quero mais: gostava quer escrevessem poemas originais.
Prometo fazer o possível para destacar aqui no blogue um desses poemas – de segunda a sexta.

Começamos já amanhã?

Ora leiam este poema… Vão adorar!

Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos,
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora d’esperar bem,
que nunca tam tristes vistes,
outros nenhuns por ninguém.

João Ruiz Castell-Branco
in Garcia de Resende,
Cancioneiro Geral